Harvard não está tão longe assim

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Artigo da professora Leila dos Santos Macedo enviado pela autora ao JCEmail.

O avanço do Brasil na última década é notório. Programas governamentais como o Bolsa Família, o Fome Zero e o Brasil Alfabetizado ajudaram o Brasil a melhorar nos índices de educação, no entanto, estes avanços não foram suficientes para tirar o país de uma posição intermediária em relatórios de rendimento escolar da Unesco em nosso continente, ficando ao lado de países como Peru, Paraguai e Bolívia.

De acordo com dados do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), o Brasil foi o terceiro país que mais cresceu – 33 pontos, chegando a 401. Pode parecer alentador, mas não é. Hoje, o País ocupa a nada honrosa 57a posição no Pisa, à frente de apenas oito países. A China, primeira colocada, totalizou 556 pontos. Se o Pisa fosse um campeonato de futebol, o Brasil estaria bem próximo da zona de rebaixamento.

Um dos objetivos traçados pelo Plano Brasil 2022, do governo federal, é elevar a nota dos estudantes brasileiros no Pisa para 473 pontos – um salto de 72 pontos em uma década, bem superior aos 33 alcançados entre 1999 e 2009. Para tanto, o plano prevê um novo modelo educacional que atinja desde o ensino fundamental ao superior.

A desigualdade do sistema de ensino é outro agravante – basta passar os olhos nos indicadores do Pisa. Enquanto os estudantes de escolas particulares alcançam a média de 502 pontos, os da rede pública estacionam nos 387 pontos. Um dos fatores que pesam a favor do ensino privado está na disponibilidade de recursos humanos. Nas escolas particulares, os professores são mais qualificados e o material didático, mais completo do que o oferecido pelo Estado. Na Olimpíada Brasileira de Biologia (OBB), organizada há seis anos pela Associação Nacional de Biossegurança (ANBio) em todo território nacional, mais de 50% dos alunos participantes é da rede pública mas, infelizmente nunca desde a primeira OBB em 2005, um aluno da rede pública foi classificado a participar de uma olimpíada internacional ou Ibero-Americana – sempre os vencedores se originam na rede particular.

Entretanto, nem tudo está perdido e temos uma luz no horizonte, bastando para isso uma mudança de paradigma educacional. Sabemos o quanto é difícil a aceitação de um novo modelo ou paradigma, mas a realidade mostra que ou mudamos ou somos engolidos pela Esfinge tecnológica. Ao contrário da Matemática, que é uma ciência estática e que desde Pitágoras na Grécia em 490 a.C se mantém em seus teoremas, a Biologia é dinâmica e muda a cada segundo. Portanto, hoje os livros didáticos de Biologia estão na época de Watson e Crick, enquanto os cientistas discutem as aplicações da biologia sintética.

Fica claro, que temos que adotar uma nova lógica na educação, onde o professor, como principal ator no processo fale a linguagem que o aluno entenda e que esteja motivado para escutar. O método usado nas Olimpíadas de Biologia (www.anbiojovem.org.br) para treinamento dos alunos e professores coordenadores da OBB, baseado no binômio"hands on" e "minds on" tem permitido o Brasil conquistar medalhas nas Olimpíadas Internacionais de Biologia, mesmo considerando ainda todas as limitações do ensino, sobretudo do ensino público.

O adolescente, com seu intenso fluxo de hormônios, quer competir e se auto-afirmar em sua comunidade. Por isso os jogos interativos são tão estimulantes para a juventude. Hoje já temos professores de Biologia que reconhecem que "o aluno aprende muito mais quando o professor fala sua língua", comenta o professor Rubens Oda, coordenador da OBB. Temos vários exemplos na Internet de aulas de Biologia bastante fora do "convencional", que ensina, por exemplo, estrutura vegetal por meio de um vídeo acreditem, da "Lady Gaga"; ou mesmo uma aula sobre hormônios cantada em ritmo de "Funk", onde os alunos vibram e se envolvem totalmente no aprendizado.

Recentemente, um de nossos alunos que obteve medalha na Olimpíada Internacional de Biologia na Coréia do Sul no ano passado conseguiu com louvor uma vaga na tão sonhada Universidade de Harvard. É claro que aí teremos outro problema: o de depois de concluído o curso em Harvard perdermos nosso profissional para os"brain hunters" que certamente já estão de olho nele. A falta de uma política de Governo, onde se insira o setor privado como parceiro, e que preveja a imediata absorção de cérebros de destaque faz com que tenhamos a migração desses cérebros para mercados mais vantajosos no exterior.

Uma das formas de diminuir as diferenças público-privado no ensino da Biologia é a criação de laboratórios e projetos práticos na rede pública de ensino. A logística de um laboratório, entretanto é bastante complicada e custosa. Entretanto, podemos usar modelos virtuais de laboratório, aproveitando o plano de inclusão digital e aparelhamento das escolas com computadores atualmente em implantação pelo governo federal. A Olimpíada de Biologia através da ANBio e seus parceiros desenvolve projeto piloto onde a criação de laboratório/ambiente virtual motiva o estudante a buscar novos modelos de aprendizado dentro de um novo paradigma educacional.

Atrair alunos para as ciências biológicas parece natural. A biologia está presente no cotidiano do aluno:

– A batata que "puxa" sal do feijão que estava salgado demais.

– O pão que cresceu pela fermentação alcoólica.

– As enzimas recombinantes do sabão em pó.

– As alterações climáticas globais e o aumento da incidência da dengue.

Por que os alunos muitas vezes não são motivados pela Biologia? Infelizmente, a abordagem livresca de conteúdos quase sempre desatualizados, dificulta a aprendizagem e perdem a chance de mostrar como o ensino de ciências pode ser contextualizado e motivador.

Unir os conteúdos de Ciências Biológicas com novas linguagens de aprendizagem parece catalisar o aprendizado despertando os alunos da rede pública para a sua alfabetização funcional-científica.

A motivação por ambientes virtuais quer seja através de jogos de competição como por vídeos interativos é evidente para a faixa etária de alunos do ensino médio, portanto o uso dessas tecnologias para criar ambientes de ensino virtual irá com certeza ampliar o conhecimento no campo da Biologia.

E para concluir citaremos Pitágoras, que mesmo estando em épocas remotas disse com tanta precisão: "Educai as crianças e não será preciso punir os homens".

Leila dos Santos Macedo é Ph.D. em Microbiologia e Imunologia; pesquisadora titular da Fiocruz e presidente da Associação Nacional de Biossegurança (ANBio), e-mail: leila.macedo10 ;www.anbio.org.br; www.anbiojovem.org.br

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